Beirut – “Just another night in Nantes”

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21. Jul. 2011, 1:56



Era certo dizer que eu havia exagerado no vinho. Quase três horas da manhã e eu, no centro do quarto, com a garrafa à mão pela metade, cantava Nantes aos brados, enquanto gesticulava a uma orquestra inexistente. “Just another niiiiight in Nantes...”. Se acordei alguém não sei, mas quando uma música nos leva à completa catarse, devemos mesmo gritá-la aos ventos – ou às paredes. Ótimo notar que o Beirut tem uma porção de músicas assim.

Zach Condon é mesmo um sujeito que merece nossa admiração. Depois de viajar pela Europa, bebeu, aprendeu, se alimentou, e soube usar genialmente cada sonoridade rebuscada que encontrou. Música balcã, celebrações ciganas, valsas vienenses, fanfarras, violões mariachis, e vários outros estilos, somados, estão em Beirut. Trilha perfeita para se tomar um bom vinho em uma gôndola veneziana ou em uma festa cigana nas florestas da Romênia. Os arranjos suntuosos são o forte de Beirut, que une vários instrumentos em uma sinfonia bela e bem costurada, que nos leva à inquestionável nostalgia. E a nostalgia é realmente a palavra que se destaca nessas composições de lírica singela e exaltações sobre cenários belos e antigos. A saudade de lugares mais acolhedores do passado.

Digo cenários porque os trabalhos do Beirut poderiam ser considerados um guia – sonoro e emotivo – de viagem. Seu primeiro álbum, Gulag Orkestar (2006) pode ou não fazer referência às ilhas russas, já que “Arquipélago Gulag” é também um importante livro sobre os campos de concentração. Há ainda Prenzlauerberg (uma brincadeira com o bairro de Berlim?); as referências à Alemanha de Brandenburg e Rhineland (Heartland); e à Eslováquia, na totalmente cigana, Batislava (nome da capital do país). Zach também parece guardar um lugar especial no peito para a Itália, já que duas de suas canções mais belas remetem ao país – dos canais de Veneza em The Canals Of Our City, ou na orquestrada Postcards From Italy, o ponto alto do álbum, que também já foi regravada na voz potente de Florence. O álbum encerra adequadamente com After The Curtain, possivelmente uma homenagem ao antigo teatro inglês. Músicas feitas com esmero e perfeição, cujo único possível erro pode ser parecerem-se demais. Gulag Orkestar acaba soando repetitivo em alguns pontos, e apesar de eu apreciar a insinuação sombria da música que dá nome ao álbum e da triste Prenzlauerberg, muitos podem ficar incomodados com o clima fúnebre de ambas.

The Flying Club Cup, de 2007, além de trazer referências menos claras à geografia européia, também possui composições mais alegres e maior variedade temática. A saudosa Nantes refere-se à cidade francesa da região de Pays de la Loire e Cherbourg à Normândia (também França), mas é só. O álbum ainda consegue encantar com a delicada A Sunday Smile, a grandiosa In The Mausoleum, a valsinha Forks ans Knives (La Fête), ou a bela Guyamas Sonora – irmã de Elephant Gun, o eterno hit da banda. São músicas festivas, que vão crescendo enquanto mergulhamos no clima vaudevilleado proposto pelos cenários imaginários que elas apresentam. Melodias feitas para se assobiar quando estivermos bem, bem velhinhos, caminhando pelos campos esverdeados de Nantes, ou simplesmente tomando um bom vinho onde quer que nos sentirmos em casa.

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