[Coluna do Caligari publicada no Melancholic Gothic Zine #15]
A partir dessa edição, passarei a falar de uma das vertentes góticas mais produtivas, o
ethereal, ou
darkwave ethereal como alguns preferem descrever. Mas antes precisamos saber o que é mesmo esse estilo musical e o que o difere das outras vertentes góticas.
Fato interessante é que desde o início dos anos 80 já havia música etérea, no entanto o rótulo de "Ethereal" só apareceu em meados de 1991 com o lançamento pela gravadora
Hyperiumda coletânea "Heavenly Voices". Bem Antes disso, Ivo Watts, dono da gravadora
4AD, celeiro de bandas como
Cocteau Twins,
Pixies,
Wolfgang Press,
Dead Can Dance e
Clan of Xymox, lança aquele que considero o projeto mais ousado em termos musicais:
It´ll end in Tears(terminará em lágrimas) é um album onde não podemos dizer se tratar de uma coletânea ou até de uma mesma banda. O disco da banda “
This Mortal Coil" tinha uma formação diferente a cada canção, todos artistas do casting da gravadora. O resultado é a união perfeita de vocais angelicais como de
Elizabeth Fraser(Cocteau Twins), Tania Donelly(Throwing Muses) e Kim Deal(Pixies)com arranjos marcantes numa sonoridade que nos faz sonhar estando acordado. Ao todo foram 4 discos gravados:
It´ll end in Tears(1984),
Filligre & Shadow (1986),
Lonely is an Eyesore (1987) e
Blood(1991), que serviram pra consolidar esse marco na sonoridade musical gótica. Paralelo a esse projeto, já existiam bandas como Cocteau Twins e Dead Can Dance que primoravam no vocal lânguido, por vezes triste quase depressivo, outras vezes magicalmente alegre.
Poderíamos dizer que a característica principal do estilo Ethereal é o vocal lírico extremamente refinado e quase sempre feminino, onde a sonoridade importa mais que a letra. Até hoje não se sabe exatamente o que Elizabeth Fraser cantava nas canções do Cocteau ou o "idioma inventado" por Chako nas canções da banda ethereal japonesa,
Jack or Jive. Há uma diferenciação também marcante para os puristas que preferem separar o Ethereal propriamente dito do Neoclássico. Enquanto o primeiro prefere instrumentos eletrônicos, o neoclássico usa instrumentos acústicos próprios de música erudita. Outra diferenciação muito importante se dá do Ethereal/Neoclássico para o chamado "Gothic Metal". Enquanto o Ethereal prima pela erudição e o refinamento melódico completo da canção, o que temos, em via de regra, no "Gothic Metal" nada mais é que um metal melódico, onde se acrescenta um vocal lírico que se contrapôe a uma voz gutural masculina, isso tudo sob acordes instrumentais essencialmente de base do "rock metaleiro".
Como disse antes, a primeira gravadora a promover bandas Ethereal foi a 4AD com os grandes nomes consagrados da década de oitenta. Posteriormente, temos a retomada do estilo no início dos anos 90 com o lançamento dos cinco albuns da coletânea Heavenly Voices pela alemã Hyperium. Hoje, a gravadora americana
Projektpromove as principais bandas do estilo Ethereal/Darkwave/Dark Ambient no mundo. Nomes como
Autumn´s Grey Solace, Dark Sanctuary,
Arcana,
Rajna,
Love Spirals Downwards,
Faith and the Muse,
Ordo Equitum Solis,
Lycia, entre outros fazem parte do casting da gravadora.
A cada dia nascem novas nesse gênero e felizmente a qualidade tem só melhorado. A riqueza de sonoridade do Ethereal é o fundamental para que esse gênero sempre se renove sem cair na mesmice como ocorre em muitos outros gêneros musicais.
A partir da próxima edição quero apresentar as novas bandas desse cenário sem deixar de mostrar a biografia e discografias das bandas que consagraram o gênero.
A propósito. Retirei o título da coluna de uma declaração de Liz Fraser. Quando perguntada numa entrevista o que era a música dela, respondeu: ”
música para induzir a vertigem”.
Por
Dr. Caligari